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terça-feira, 13 de julho de 2010

Sobre os Limites

Autoria: Miriam Altman e Muna Maalouli
Fazer uma reflexão sobre a importância dos limites, considerando-o como aspecto fundamental na vida de todos os seres humanos e sobretudo na educação infantil, implica na consideração de vários fatores envolvidos.
Um deles refere-se a presença do sentimento de frustração, nas situações onde a realidade se apresenta impondo restrições e limites. Frente á frustração são experimentados sentimentos de dor, raiva, contrariedade e ódio.
Observamos que muitas vezes a tendência das pessoas é de não reconhecer esses sentimentos e tentar negar a realidade ou mesmo fugir e fingir que nada ocorre; outras se sentem mais capazes de entrar em contato com essas vivências e a partir delas encontrar alternativas. Fato que demanda um certo amadurecimento.
O sentimento de frustração pode tornar-se muito freqüente em função do desejo da criança que é ilimitado e não leva ainda em conta os aspectos da realidade. É característica da natureza do desejo que este seja ilimitado, desmedido impregnado por fantasias de tudo querer e de tudo poder. Só com o desenvolvimento e com a ajuda do adulto é que a criança pode ir aprendendo a restringir certas vontades, a trocar uma coisa por outra, a aceitar que existe uma hora para cada atividade e que mesmo que algo seja prazeroso, em certo momento pode precisar ser deixado de lado e substituído por outra coisa .
Este é também um aspecto bastante importante a ser considerado, que é o da onipotência dos pensamentos , fantasias e desejos infantis. A criança imagina que de fato é toda poderosa e fica muito assustada com a força e intensidade que seus sentimentos podem ter. Se por exemplo esta hostil pode imaginar que a sua raiva pode atingir a mãe de forma destrutiva e arrasadora e como conseqüência pode sentir-se culpada e deprimida. O sentimento de culpa também indica que a mãe que naquele momento esta sendo tão odiada também é a mãe amada da qual a criança depende e nutre fortes sentimentos amorosos. Na fantasia da criança o amor que também é vivido intensamente pode ser expresso como voracidade; vontade de sugar a mãe toda para dentro de si e mantê-la presa e sob controle.
È importante ressaltar que estamos falando de mecanismos mentais bastante primitivos, no sentido de que fazem parte dos primórdios da vida psíquica. Faz parte desse começo esta forma indiscriminada de lidar com o mundo interno e com o externo, com o que é fantasia e o que è realidade. A criança desta forma dá asas a sua onipotência pois não esta ainda habituada a confrontar seu mundo de fantasias com a realidade e com os fatos. Pois a realidade indica que ela é um ser bastante dependente, precisa da permissão dos pais para quase tudo, seu poder de decisão é bastante restrito e tem pouca autonomia.
Temos observado que a brincadeira e a dramatização são formas úteis onde a criança pode expressar seus desejos de imitar o adulto e de exercitar o seu "poder" sem conseqüências danosas para ela. Neste sentido a escola pode ter uma função muito importante, pois se torna um lugar privilegiado para este aprendizado, na medida em que a criança passa pela "socialização" onde todas estas experiências estarão presentes.
Por todas estas razões , este é um processo lento, bastante trabalhoso pois implica em renúncias. Não é fácil para a criança e nem para o adulto abandonar algo conhecido e prazeroso. Freud, em seu artigo " Os dois princípios do funcionamento mental" nos esclarece quanto a estas questões. Descreve dois modos pelo qual o aparelho mental funciona. O primeiro é regido pelo princípio de prazer/ desprazer; o outro pelo princípio da realidade.
N o primeiro modo o que predomina é a busca do prazer a qualquer custo e este é conseguido através da descarga de qualquer aumento de tensão. Se a criança esta com raiva do amigo, vai lá e empurra, chuta, bate ou morde. Dessa forma se vê temporariamente livre do desconforto do aumento de tensão interna através deste tipo de descarga motora e corporal.
No segundo modo, o que se considera é a realidade. Está em jogo também a possibilidade de antecipar a ação através do pensamento. A criança já pode considerar o amigo de outra forma possivelmente não precisara bater, poderá se expressar através de palavras. Isso implica numa maior tolerância com relação ao seu próprio desconforto e aumento de tensão interna.
Os pais e educadores se encontram frente a uma situação difícil e delicada, não é fácil pegar o filho na escola e encontrá-lo com uma marca roxa na bochecha . É importante considerar que a presença do adulto pode restringir certas atitudes das crianças, mas não é possível impedir que aconteça , principalmente num grupo de crianças onde esta forma de expressão ainda é a que prevalece. Todas as crianças passam por esta fase, é importante notar que é algo passageiro e que logo que lhes é possível vão encontrando outros modos de expressar seus sentimentos.
Linguagem e pensamento são aquisições posteriores, que vêem com o desenvolvimento intelectual e sobretudo emocional. Neste sentido podemos observar um movimento no desenvolvimento infantil com relação a expressão das emoções, que vai dos aspectos mais concretos e corporais para formas mais abstratas e complexas que incluem a linguagem, a capacidade para a simbolização e para o pensar. Com relação ao desenvolvimento cognitivo Jean Piaget chegou a conclusões muito próximas a estas. Faz parte do desenvolvimento, fazer renúncias e abrir mão de coisas conhecidas. Freud chama a atenção para o fato de que o homem só pôde criar a civilização a partir do momento em que aceitou dolorosamente abrir mão dessas formas arcaicas e primitivas de convivência. A civilização e a cultura só podem ocorrer com a inclusão de formas mais evoluídas como a linguagem, a simbolização, a arte, a música e outras acessíveis á capacidade de desenvolvimento do ser humano.
Outra visão a respeito dessas questões foi muito bem estudada pela psicanalista inglesa Melanie Klein, através de sua experiência clínica e de uma observação bastante cuidadosa, ela nos diz que o amor e o ódio fazem parte da natureza dos sentimentos humanos.
Quando o bebê passa pela experiência da frustração (por exemplo, se está com fome e tem que aguardar a presença da mãe para ser alimentado) vive uma situação interna caótica e desorganizada. Em contrapartida, quando está saciado e gratificado recupera um bem estar e uma organização. As primeiras experiências emocionais são vividas de forma tal que, quando a mãe atende às necessidades do bebê ela é "boa" e, ao contrário, quando o frustra, ela é "má". No primeiro caso, a criança pequena identifica a mãe como a "fada", ou seja, aquela que tudo pode e tudo dá. Opostamente, ao frustrar-se, a criança identifica a mãe como a "bruxa" que nada tem de bom a oferecer. Por isso os contos de fada fazem tanto sentido para o mundo interno da criança, pois retratam a oposição entre o bem e o mal. Assim inicialmente os processos psíquicos infantis caracterizam-se por vivências intensas e parciais em relação ao outro que frustra ou gratifica . Quando gratifica, o outro é amado, adorado e querido; no momento seguinte em que a criança é frustrada o outro passa a ser objeto da agressão, ódio e maldade.
Na vivência ligada à gratificação , quando a criança esta atendida e satisfeita a tendência é a idealização do outro. A mãe passa a ser vista como um ser perfeito, toda poderosa, não tem limites e pode dar tudo.
A característica destas vivências parciais é que a mudança de estado é brusca e pode ir de um extremo ao outro- da idealização ao ódio profundo ou vice- versa. Estas vivências fazem parte da vida mental de todos nós, quanto mais jovem e menos amadurecido, mais intensas e extremas elas se apresentam. A noção do outro como ser independente e separado, como aquele que frustra e ao mesmo tempo gratifica é bem posterior. Nestas primeiras e primitivas vivências , o que é bom esta dentro, o mau esta fora, desta forma não há responsabilidade pessoal. Por exemplo, o outro é responsável pela minha dor, por eu ter caído, por ter me machucado, por não conseguir fazer as coisas, etc...
Somente quando a criança percebe que a mãe, as pessoas e a realidade não são totalmente boas e nem totalmente más é que vai integrando esses aspectos dentro de si mesma. Dessa forma as experiências emocionais gratificantes (boas) e as frustrantes (más) passam a coexistir dentro dela e na sua relação com as pessoas e com o ambiente que a cerca. Esse progresso no desenvolvimento emocional permite que a criança aceite melhor as adversidades e restrições pois as frustrações deixam de ter um caráter tão terrivelmente ruim na medida em que também são consideradas as experiências boas. Surge também a culpa e o medo de perder o outro, a tendência a querer reparar o "mal" que na sua fantasia cometeu, a preocupação da criança não esta mais tão centrada em si mesma, existe também uma preocupação genuína pelo outro.
Esse progresso é um processo lento e trabalhoso. Quem pode ajudar a criança nesse sentido é o adulto, os educadores, e sobretudo, os pais. Para tanto, é fundamental que os adultos também possam aceitar os limites e as frustrações da vida, considerando os aspectos da realidade (princípio da realidade), ou seja, o adulto possa compreender que frustrar o filho (dar limites) não é ser "mau", e sim, dar-lhe proteção e cuidado. Se isto não está sendo possível, as "regras" de como educar e castigar acabam falhando.
É preciso que os pais possam aceitar as reações de agressividade e sofrimento dos filhos perante suas frustrações, de maneira a permitir que eles se desenvolvam. Freud dizia que a capacidade para pensar é uma atividade bastante complexa, que só pode se desenvolver no ser humano quando ele é capaz de se confrontar com obstáculos e dificuldades para, a partir daí, encontrar novas soluções a alternativas. O sofrimento faz parte da vida e, tentar poupar os filhos dessas experiências, é prejudicá-los no enfrentamento da vida. Nesse sentido, o que a psicanálise nos mostra é que só através dessas vivências a criança pode formar um aparelho mental mais fortalecido.

quinta-feira, 10 de junho de 2010

O JOGO DO AMOR

Somos criados para pensar que não. O amor é um jogo? Que absurdo, ora essa. O amor é pra ser sentido, demonstrado, percebido, e não racionalizado. Joguinhos, se existirem, só devem fazer parte do começo das relações afetivas, é o que nos acostumamos a pensar. De resto, deixa o coração falar mais alto.
E do “alto” dos meus 44 anos, com algum aprendizado sobre relacionamentos, hoje me arrisco a dizer que o amor pode ser um jogo, sim. Quem nunca pensou que “quando demonstro que gosto muito de alguém, a pessoa se acomoda”? Que relacionamento, por mais apaixonado que seja, resiste às não- renovações diárias de demonstrações de carinho, respeito e confiança?
Não é que tenhamos que medir cada palavra, cada gesto com quem amamos. Mas faz parte, sim, oferecer confiança em excesso em alguns momentos, e permitir um pouco de insegurança em outros. Sentir-se em uma relação estável, mas saber que é necessário conquistar e ser conquistado novamente dia após dia para manterem-se juntos. Faz parte do ser humano, ainda que não tenha consciência disso, não querer sentir-se seguro o tempo todo ao lado de alguém. Se não houver o risco de perda, o que pode se perder é a graça.
Conversando sobre os “jogos do amor” com uma paciente, me deparei com uma analogia muito interessante e que compartilho com vocês dada a simplicidade, ao mesmo tempo em que é profunda. Ela comparou o amor a partidas de tênis e de frescobol. Duas pessoas que jogam tênis têm em comum o objetivo de vencer, o que acarreta, necessariamente, na derrota de um dos dois. Os participantes são chamados de adversários e mandam “bolas ruins” um pro outro, porque o erro de um significa o acerto do oponente.
No caso do frescobol, olha que interessante. Não há vencedor nem perdedor, e comumente os pontos nem são contabilizados. Duas pessoas mandam “bolas boas” uma pra outra com o único objetivo de se divertir e não deixar que a bola caia, porque isso sim acabaria com a partida, ou resultaria no seu recomeço.
Como no jogo do amor funciona parecido! Há casais que jogam tênis sem perceber, e em vez de buscarem cumplicidade, diversão mútua e se preocuparem apenas em manter a bola no ar, disputam a vitória – que nunca chega, porque a “derrota” de um implica sempre no sofrimento também do outro. Por mais óbvio que pareça, como é difícil jogar frescobol! Não concorrer nem disputar, jogar o jogo do amor de modo que os dois sejam parceiros e não adversários, sem contabilizar pontos e percebendo que quando um recebe “bola boa”, o outro ganha também. Os dois, portanto, são vencedores, se não ao mesmo tempo, pelo menos se alternam nesse papel.
A bola caiu! E agora? Para tenistas, isso pode significar o fim da partida - a glória de um e a desgraça do outro. Pra quem joga frescobol, a queda também pode resultar no término da partida, ou não – é uma decisão que cabe aos dois que jogam. Afinal, não há pontuação, nem juiz, nem mesmo torcida – contra ou a favor. Há apenas duas pessoas que, se quiserem, podem continuar jogando juntas, tentando se divertir mantendo a bola no ar, mesmo sabendo que às vezes ela vai cair, inevitavelmente. E que em todas as vezes que isso acontecer, provavelmente um vai ter mais vontade de apanhar a bola do que o outro, porque o ser humano é complexo assim.
A partida continua se ambos concordam que não querem ser oponentes, e que apesar de já terem perdido antes, desejam continuar jogando. Talvez porque o jogo valha a pena, por si só. Talvez porque, mesmo sem certezas pro resto da vida, queiram manter a bola no ar. Ou simplesmente porque – e aí temos o exemplo da nossa dupla de vôlei de praia feminina nas Olimpíadas, que têm dificuldades em se entrosar porque nunca tinha jogado juntas -, aquela parceria é insubstituível.
O dono da bola e das raquetes sabe que não vai achar alguém com quem ele tenha tanta vontade de jogar. E quem joga com ele sabe que pode escolher jogar com outras pessoas, mas é essa bola que caiu na areia que ele quer manter no ar.

A MULHER APAIXONADA

A mulher pode estar gostando, pode estar envolvida, pode estar a fim, pode estar impressionada. Em todos esses estados pode se relacionar amorosamente.Mas a mulher apaixonada está em outro astral. Tudo nela, principalmente certos mecanismos inaprisionáveis por palavras, fala de paixão. É um certo jeito de se acalmar dentro da maior tensão, é a postura dos braços, é algo nas glândulas da pele, no olho, na respiração.
A mulher apaixonada é um ser em estado de torcida do Flamengo. Torce mais pelo amado que pela Seleção. Entra no campo, agride o juiz, salta o alambrado, topa qualquer desafio. Só vê vitória. O único ser que topa qualquer parada não é o herói, o desesperado ou o valente: é a mulher apaixonada. Vai pro exílio, larga profissão, conveniência, partido político. Só tem um caminho e uma verdade: o amor. O resto virá depois. Sem ele, o tudo é nada.
A mulher apaixonada é o mais paciente dos seres impacientes. Sempre em estado de “estou pronta”, suporta anos esperando com maravilhosa impaciência, exigência, dedicação, entrega, cegueira, vontade de quintais e praias, as amarrações que supõe perfeitas e definitivas. Ninguém vive a provisoriedade com tanto sentido de permanência. Ninguém assina em branco e antecipa tantos avais de afeto. Ninguém erra com tanta convicção e decência.
Fera e santa, guerreira e gato, desastrada e genial, capaz de usar fitas, meias coloridas, blusas-bobagem; uma campainha nos joelhos; uma joaninha de verdade na testa; de enfrentar solidões, distâncias, presenças, piratas e furacões pelo ser amado, a mulher apaixonada é o mais regular dos seres irregulares, porque não julga, não pensa, não avalia, só sente.
E que se danem o mundo, as regras, as regulações, conveniências, aparências, seguranças, convenções, disposições, legislações e tudo aquilo que mamãe me ensinou! Que o mundo exploda em flores!
Ser de grandezas, só vive de migalhas. Ser de farturas, alimenta-se de ar, nuvem, vontade, espera e sonho. Quem se supõe apaixonada e trocar uma nuvem por um sanduíche está é com fome, não com paixão. Está doente de saúde e não saudável de doença de amor.
A mulher apaixonada é um ser em estado de entendimento de pedaços da vida desconhecidos pelo comum dos mortais: entende de lençóis iluminados pela luz do corredor nas noites sem sono, conhece ruídos diferentes de tique-taques, entende de meio-fio, de paredes chutadas, de cantores e poetas escolhidos secretamente, de confidências contadas para as toalhas.
Domina computadores afetivos encarregados de arquivar e interpretar as mensagens mais sutis do amado: tom de voz, espaço entre uma e outra frase, fomes dominicais, impressões vagas de cansaço, tédio, alegria ou saudade expressas por fungados, suspiros, desabafos, interjeições, gestos, sons, olhares, todos tabulados no seu “compoetador”, perfurado pela esperança e perfumado pela possibilidade.
A mulher apaixonada mistura bola de gude com Heidegger; borboleta com suco de pitanga; laquê com desejo; talão de pedágio com metafísica; sapato de tênis com Brahms; sanduíches de mortadela com informática; distração com rejeição; perturba-se de tanta lucidez; tolda- se de tanta nitidez; mancha-se de tanta pureza; confunde-se de tanto autoconhecimento; engana-se de tanta verdade; embaraça-se de tanta decisão; entendia-se de tanta disposição.
Ela mistura disposição com vontade. Possibilidade com ânsia. Dificuldade com não querer. Em suma: é o mais incapaz dos capazes do que há de melhor, mais lindo, legítimo e verdadeiro.
A mulher apaixonada vive de farol alto, não desliga a buzina, não fecha bico de gás, só anda de pé da tábua, ouve tudo em 78 rotações, força a barra, anda na contramão, joga pedra no telhado do vizinho, vai depressa com o andor, desassossega o leão, cutuca a fera com vara curta, gasta pólvora com chimango, perde tempo, ganha o sonho, vive o susto, varre o medo, enfrenta a frota, esmaga o espanto, esbarra no afago, espera a vida, encontra a razão, fala de boca cheia, assovia e chupa cana, beija a madrugada, insulta a acomodação, instala o reino da validade.
Ela é: especialista em pretextos, modista de oportunidades, cozinheira de chances, pediatra de carências, jardineira de manhãs, pastora de indícios, navegante de esperanças, fiandeira de frustrações, colhedeira de instantes, tecelã de ternuras, miúra de girassóis, doceira de amarguras.
A mulher apaixonada é furacão e chuvisco; exaltação e placidez, adivinha e alienada, sábia e patusca, maravilha e susto, mãe e mulher, filha e bruxa, santa e desastrada. A mulher apaixonada é, em suma, o ser que atende e representa em profundidade, em delírio, em sofrimento e em glória, a criança carente que mora em nós.
**Artur da Távola

terça-feira, 26 de maio de 2009

É desconcertante rever um grande amor

Motivos muitas vezes hoje incompreensíveis puseram fim ao relacionamento. Fantasias povoaram o período de afastamento. Estratégias precederam o grande dia. Mas o reencontro é no mínimo constrangedor. Surpresas, ainda que positivas, encabulam. Mostram que aquela história é coisa do passado.
A vontade de rever um grande amor pode mobilizar uma pessoa a atravessar mares a nado. Mas quando pisa em outro continente a terra é firme?
Em algum momento anterior de sua história amorosa, a pessoa viveu um intenso e inesquecível relacionamento. Por motivos que escapam a qualquer tentativa racional de compreensão, a relação se desfez. Tomaram rumos distintos, conheceram novos amores, enveredaram por trilhas que nunca mais se cruzam. Costuma-se dizer, no entanto, que o ator desocupa o palco, mas o fantasma do personagem tem vida própria e teima em permanecer ativo. A pessoa se relaciona com a imagem daquele grande amor, agora descolada da concretude da figura humana que um dia carregou.
Se o relacionamento não se sustentou, é provável que isso tenha sido devido a um inter-jogo em que cada parceiro atribuiu ao outro conteúdos irreais que nenhum dos dois poderia sustentar. Com a separação, a pessoa real do parceiro não está mais lá para servir de contraste para as fantasias, o que deixa a imaginação ainda mais livre para desenhar o personagem como bem quiser.
Novos relacionamentos amorosos, por mais bem sucedidos que sejam, não dão conta de apagar a existência, ou mesmo a evolução – pois é -, daquela viva imagem.
Alguns anos mais tarde surge o desejo de um reencontro. Para localizar o paradeiro daquele grande amor valem todas as estratégias. As mais simples são a internet, a lista telefônica, a oficina mecânica onde trabalhou o irmão do marido da manicure da vizinha da avó. Dezoito telefonemas, 200 km rodados aqui e ali e pronto: achou. É sempre bom checar qual o atual estado civil. Nunca se sabe.
Marca-se o encontro por telefone ou outro método indireto para diluir o impacto em etapas gradativas de reaproximação. Chega o grande dia: tremor nas pernas, frio na barriga, suor nas mãos, roupa nova, olhos de criança que vai à Disneylândia pela primeira vez, arrependimento, vou-não-vou; “ah, eu vou”. Esse é o quadro interno anterior ao encontro.
Quadro interno no ato do encontro: o chão desaparece; a pessoa concreta não corresponde à imagem para a qual um dia fora inspiradora e, por causa disso, decepciona. Ou contrário: frustra a expectativa exatamente por se apresentar de um modo muito mais positivo do que o esperado. Outra possibilidade: características que um dia foram marcantes hoje estão esmaecidas, o que causa certo desencanto. A pele já não é tão suave, os cabelos estão ralos e já não são tão bem cuidados. Outras marcas se acentuaram: aquela mania de contar a mesma história evoluiu para um obcecado apego a certos temas; aquela ligeira propensão a engordar já não é só uma tendência.
Mas ainda não se descreveu o fator mais constrangedor. No passado, a relação foi de grande contato e intimidade. Hoje, ao se reencontrarem, desaparece a fluência. Não sabem o que fazer com as mãos; as palavras parecem todas bobas e infantis; os sentimentos que um dia experimentaram se reacendem, sem que estejam livres para fluir. Um já não se sente mais a vontade para fazer do outro um desaguadouro para toda energia que subitamente se faz presente. É como se a porta que protegia a antiga intimidade se abrisse e tornasse público aquilo que foi tão particular, cúmplice e privativo, mesmo quando eles são a única platéia a presenciar a cena.
Um velho amor é sempre – sempre – um amor. Tem no mínimo, um significado histórico, uma marcante participação. O que sou hoje inclui a imensa contribuição de todos os meus amores, pois cada pessoa que entrou na minha vida iluminou uma parcela de mim, que talvez sem ela eu jamais tivesse conhecido.
Nenhuma história é igual a outra; nenhum amor será igual o outro. Uma pessoa experimenta o reencontro de um jeito diferente daquele como outra pessoa o percebe. Mas o núcleo da vivência, este sim é igual para todos em qualquer lugar do mundo. “É desconcertante rever um grande amor”, já disseram Chico Buarque e Tom Jobim nos versos de Anos Dourados.
Quadro interno após o encontro: a noção exata de que a relação não tem que se atualizar. Não é o caso; não cabe mais. Faz sentido que permaneça onde está e ocupe o espaço que sempre ocupou, ou seja, o de um momento histórico significativo, querido, especial. A terra é firme, mas o país se tornou relativamente estrangeiro. A “cidadania” adquirida em outras paragens pede para ser preservada.
Há exceções? Talvez, mas elas existirão onde, no passado, houve um erro de leitura e, quem sabe, o indevido abandono de um porto seguro.

Relacionamento com homens opostos às mulheres

Nos dias de hoje é cada vez mais comum mulheres estáveis financeiramente e profissionalmente se envolverem emocionalmente com homens mais jovens e ainda “não resolvidos financeiramente e profissionalmente”. Isso não é exclusividade das atrizes ou socialites, acontece com a mais comum das mortais. Mulheres valentes que se “arriscam” em busca de uma amor, que muitos consideram e encaram como absurdo.
Essas mulheres saem em busca daquilo que foi perdido ou deixado para trás na sua trajetória, do amor que muitas vezes nunca foi encontrado ou vivido.
Esses homens que são o objeto de desejo dessas mulheres destemidas, na maioria das vezes são mais jovens e de uma condição financeira inferior ou de um nível cultural muito aquém do delas. Mas o que buscar em uma pessoa totalmente diferente, talvez o oposto, que não tem as mesmas expectativas em relação ao futuro nem ao presente?
Um amor verdadeiro?
Um apoio não encontrado em outros homens?
Um desafio às regras sociais?
Uma pessoa que se submete aos caprichos dela para a relação de poder ficar evidente?
Busca-se tudo isso e ao mesmo tempo nada disso!
Mulheres que batalham por si só, que enfrentam guerras e guerreiro para conseguirem seu objetivo, que têm uma grande necessidade de mostrar poder e independência. Elas não precisam provar nada prá ninguém, ou melhor, como diz a canção “Quase sem querer” de Renato Russo e Dado Villa Lobos: “...eu queria provar prá todo mundo que eu não precisava provar nada prá ninguém...” e com isso seguem seu caminho lutando, conquistando, dominando, mas no fundo com uma extrema vontade de se mostrar frágil, abatida e carente. Querendo um cafuné, um colo, um carinho sem maiores intenções.
É à noite na solidão do seu quarto, à meia luz, no seu mundo interior, onde só existem os travesseiros para ouvirem suas confissões e as toalhas para envolverem sua alma frágil e carente, que desabrocha a verdadeira mulher que antes estava revestida de pedra. Quantos suspiros soltos ao ar, quantas lágrimas derramadas embaixo do chuveiro...
Então num encontro casual, afinal, muitos já se encontraram assim, aparece aquele que não sabendo suas origens, nem das batalhas por ela vividas, oferece por instantes, um ombro amigo, um sorriso sem muitas intenções, um carinho sem comprometimento, mas que conquista, e então, em questão de segundos, ela se vê desarmada. Toda sua estratégia defensiva cai por terra em questão de minutos, cai o véu que não a deixava ver o que antes parecia tão distante. E ela se rende, se entrega nos braços daquele que é sem ser.
Agora aparece o novo, o desconhecido, um sentimento estranho que nunca antes foi experimentado, mas que faz com que todas as suas energias e ações se voltem para essa relação que lhe trás num primeiro momento um misto de felicidade eterna e prazer intenso. O mundo pode explodir em flores, que se danem regras e conveniências, às favas os amigos, os parentes e todos aqueles que ousam usar um pensamento contra aquele que ela acredita ser o verdadeiro e eterno amor de sua vida. Afinal ele está apaixonada!
Mas a realidade começa a bater na sua porta, os problemas começam a aparecer, afinal tantas diferenças não sobrevivem sob o mesmo teto por muito tempo. Surge então os confrontos: ele não quer ir à casa da amiga dela, pois não “falam a mesma língua”, os assuntos são totalmente desinteressantes, todos são uns “metidos à besta”. E ela para não desagradá-lo concorda, refugia-se no mundo fantasioso que criou para eles, ou então, acompanha-o para àquele barzinho onde é o ponto de encontro da turma dele. Todos sentam-se numa mesa, bebem e falam sobre assuntos que são totalmente alheios à sua realidade e desta vez é ela quem se sente “um peixe fora d'água”.
Os dias passam, ela começa a presenteá-lo com roupas e objetos caros, como que para tentar aproximá-lo da sua realidade. Hoje uma camisa, amanhã um relógio e depois um carro... E ele se acomoda numa situação que trás conforto, mas não bem estar. Para ela a recompensa vem nos poucos momentos de carinho que lhe são dispensados. As suas carências já não são tão ouvidas como antes, as adoráveis noites de amor tornaram-se mais distantes e ele adora sair sozinho com os amigos. Mas não adianta ninguém falar... Ela está totalmente apaixonada! Acha que tudo isso é passageiro, que tudo em breve voltará a ser como antes...
Tudo isso é uma regra? Claro que não... existem casais onde um é totalmente diferente do outro e vivem muito bem por um longo tempo, mas estes são uma raridade.
O final desta história? Cada um tem a sua... afinal cada amor trás a sua dor!

terça-feira, 5 de maio de 2009


Olá... Estamos aqui estreando essa página, pretendo
nela falar um pouco sobre sentimentos e emoções, a
base de tudo aquilo que norteia a vida do ser
humano. Quero também ouvir... ser aqui um ouvinte
dos seus sentimentos e emoções! Por isso sinta-se à
vontade para comentar tudo o que tiver vontade.
Esse blog é nosso!